
Dr. Lorenzo Ribeiro Pereira
Publicado em 28 de maio de 2026
A tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), que revolucionou a vacinologia durante a pandemia de COVID-19, está agora transformando o tratamento de doenças cardiovasculares no Brasil. A ANVISA aprovou recentemente os primeiros protocolos de uso compassivo de terapias baseadas em mRNA para pacientes com insuficiência cardíaca refratária, abrindo caminho para uma nova era na cardiologia molecular.
Diferentemente das vacinas, essas terapias cardiovasculares utilizam mRNA para instruir células cardíacas a produzirem proteínas específicas que promovem regeneração do tecido miocárdico, melhoram a função contrátil e reduzem processos inflamatórios crônicos. Os resultados preliminares de ensaios clínicos internacionais, agora replicados em centros brasileiros, demonstram melhora significativa na fração de ejeção ventricular e redução de hospitalizações em pacientes que não responderam a terapias convencionais.
O mecanismo de ação representa um salto conceitual em relação aos tratamentos tradicionais. Enquanto medicamentos convencionais atuam bloqueando ou estimulando receptores celulares, as terapias de mRNA permitem que o próprio organismo produza temporariamente as proteínas terapêuticas necessárias. Isso resulta em efeitos mais fisiológicos e potencialmente menos efeitos colaterais sistêmicos, segundo pesquisadores da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
Centros de excelência em cardiologia de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre já iniciaram protocolos experimentais com pacientes selecionados. Os critérios de inclusão são rigorosos: pacientes com insuficiência cardíaca classes funcionais III ou IV pela classificação da New York Heart Association (NYHA), que esgotaram opções terapêuticas disponíveis e não são candidatos a transplante cardíaco. O acompanhamento inclui ecocardiogramas seriados, biomarcadores cardíacos e avaliação de qualidade de vida.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia emitiu posicionamento técnico reconhecendo o potencial da tecnologia, mas reforçando a necessidade de estudos robustos em população brasileira antes da incorporação ampla ao sistema de saúde. Questões sobre durabilidade do efeito terapêutico, necessidade de doses de reforço e custo-efetividade ainda precisam ser elucidadas.
Além da insuficiência cardíaca, pesquisadores investigam aplicações de mRNA na prevenção secundária de infarto do miocárdio, estimulando produção de fatores de crescimento vascular e proteínas anti-aterogênicas. Ensaios clínicos fase II estão recrutando pacientes que sofreram infarto recente para avaliar se a tecnologia pode reduzir o risco de eventos recorrentes.
O custo ainda é um desafio significativo. As terapias atuais de mRNA cardiovascular custam entre 80 mil e 150 mil reais por paciente, valor que deverá diminuir com a produção em escala e eventual fabricação nacional. A ANVISA já sinalizou interesse em acelerar processos regulatórios para terapias inovadoras que demonstrem benefício clínico robusto.
Especialistas projetam que, nos próximos cinco anos, terapias de mRNA poderão fazer parte do arsenal terapêutico padrão para condições cardiovasculares complexas, representando esperança para milhões de brasileiros afetados por doenças cardíacas.
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