
Dr. Murilo Moraes Magalhaes
Publicado em 29 de maio de 2026
O Sistema Único de Saúde deu um passo histórico em maio de 2026 ao iniciar a oferta de terapia CAR-T para pacientes com leucemia linfoblástica aguda de células B refratária ou em recidiva. A incorporação dessa tecnologia de ponta, que modifica geneticamente linfócitos do próprio paciente para combater células cancerígenas, posiciona o Brasil entre os poucos países do mundo a oferecer o tratamento gratuitamente em seu sistema público.
A terapia com células CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell) representa uma revolução no tratamento oncológico. O processo envolve a coleta de linfócitos T do paciente, modificação genética em laboratório para expressar receptores que reconhecem proteínas específicas nas células tumorais, multiplicação dessas células modificadas e reinfusão no paciente. As células CAR-T atuam como "medicamentos vivos", buscando e destruindo células cancerígenas de forma direcionada.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS aprovou a terapia após análise de estudos clínicos que demonstraram taxas de remissão completa superiores a 80% em pacientes pediátricos e adultos jovens com leucemia linfoblástica aguda refratária. Para esses pacientes, que não responderam a tratamentos convencionais incluindo quimioterapia e transplante de medula óssea, a CAR-T representa frequentemente a última esperança terapêutica.
Inicialmente, o tratamento estará disponível em cinco centros de referência: Hospital das Clínicas da USP em São Paulo, Instituto Nacional de Câncer no Rio de Janeiro, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Hospital das Clínicas da UFMG em Belo Horizonte e Hospital Sírio-Libanês em Brasília. Esses centros receberam investimentos para construção de laboratórios de terapia celular certificados pela ANVISA, com salas limpas e equipamentos de manipulação genética de última geração.
O processo de produção é complexo e demorado. Após a coleta por aférese, as células são enviadas para laboratórios especializados onde ocorre a modificação genética utilizando vetores virais. O cultivo e expansão celular levam aproximadamente três semanas. Durante esse período, pacientes podem necessitar de quimioterapia de ponte para controlar a doença. A reinfusão das células CAR-T é seguida por período de observação intensiva, pois efeitos adversos como síndrome de liberação de citocinas podem ser graves.
A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica elaborou protocolos nacionais para seleção de pacientes, manejo de efeitos adversos e seguimento de longo prazo. Equipes multidisciplinares incluindo oncologistas, hematologistas, intensivistas e imunologistas foram capacitadas nos centros de referência. A síndrome de liberação de citocinas, principal complicação, exige monitoramento em unidades de terapia intensiva e pode necessitar de medicamentos imunossupressores como tocilizumabe.
O custo elevado da terapia - estimado em aproximadamente R$ 1,8 milhão por paciente - gerou debates sobre sustentabilidade e priorização de recursos no SUS. Especialistas argumentam que, para pacientes sem outras opções, a CAR-T pode ser custo-efetiva ao considerar anos de vida ganhos com qualidade. Estudos de acompanhamento mostram que muitos pacientes alcançam remissões duradouras, alguns potencialmente curados.
A incorporação marca também o fortalecimento da pesquisa nacional em terapias avançadas. Instituições brasileiras desenvolvem protocolos próprios de CAR-T, visando reduzir custos e adaptar a tecnologia para outros tipos de câncer. Ensaios clínicos em andamento avaliam a eficácia em linfomas e mieloma múltiplo. O domínio nacional dessa tecnologia pode posicionar o Brasil como referência regional em medicina de precisão oncológica.
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